Previdência privada em risco
Data: 24.06.2009 - Fonte: O POVO
Os planos de previdência privada sentem a queda na taxa básica de juros, mesmo que indiretamente. Para que não haja perdas ao “poupador-investidor”, as entidades de previdência devem se adequar à nova realidade, defendem especialistas.
Manter o padrão de vida, realizar um projeto futuro ou assegurar o custeio da educação dos filhos. Tudo é destino dos recursos que se guarda por décadas como forma de planejar o futuro, a chamada aposentadoria. Mas como esses recursos são afetados no presente pela variação na taxa básica de juros, a Selic?
Desde quando a Selic iniciou o gráfico de queda -a taxa caiu mais de nove pontos percentuais no quadriênio e está em 9,25% ao ano -, abriu-se o debate sobre quem sai perdendo com essa baixa. Segundo especialistas ouvidos por O POVO, os juros continuam em tendência de retração e, para que os aplicadores em planos de aposentadoria privada não percam, serão necessárias adequações pelas entidades e instituições gestoras de previdência.
Mesmo trilhando caminhos diferentes para chegar ao mesmo fim, guardar dinheiro, tanto os planos fechados (fundos de pensão) quanto abertos (individuais), são, sim, afetados pelas taxas mais baixas. “Variações nos juros do mercado acarretam variações na rentabilidade do patrimônio dos fundos previdenciários. Menos rentabilidade implica em maior necessidade de contribuições e vice-versa”, explica Paulo Arthur Vieira, atuário do Núcleo Atuarial de Previdência da Fundação Coppetec, ligado a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Vieira lembra que os fundos de previdência aplicam uma parcela considerável do patrimônio em fundos de renda fixa, que são afetados diretamente pela baixa nos juros. “Portanto, a queda na Selic, provavelmente, fará com que as entidades de previdência tenham que mudar suas estratégias de investimento, a fim de equilibrar as perdas”, comenta.
As entidades de previdência possuem uma meta de rentabilidade definida pelos seus atuários. Estas metas consideram, entre outros aspectos, a conjuntura econômica nacional e a tendência de redução da Selic. Por conta deste arranjo planejado, mesmo com a queda da rentabilidade, o especialista argumenta ser improvável que haja prejuízos às entidades gestoras de previdência.
E quem já tem?
Mas, e como ficam os planos já contratados? “Os investimentos em previdência normalmente são de longo prazo. A redução da taxa de juros não deve influenciar a estratégia deste tipo de investidor, especialmente se o dinheiro já estiver aplicado”, defende Vieira. Ele assegura que outros fatores, como a tabela de incidência do Imposto de Renda ou o prazo das aplicações trazem um impacto muito maior para as pessoas do que a taxa de juros Selic.
Para o mestre em Economia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), professor Ricardo Coimbra, os fundos previdenciários serão forçados a correrem mais riscos para segurar a rentabilidade diante de um cenário de queda de juros.
“A estratégia a ser adotada, para este segmento de investidores de longo prazo, é aplicar em setores como de infraestrutura, construção civil e automóveis, mas sempre com atenção especial aos riscos de mercado, de crédito e de liquidez”, orienta.
Portanto, o momento é de pensar em longo prazo. Como a renda fixa tende a ser decrescente em função da queda da taxa de juros, a renda variável, no prazo estendido, deve ser a estratégia das entidades previdenciárias para ter ganhos maiores e não prejudicar os aplicadores, sugere Coimbra.
E MAIS
- O especialista em previdência, professor Sérgio Cardoso, explica a diferença entre os planos de previdência privada abertos e fechados. Mais conhecidos como Fundos de Pensão, os planos fechados possuem acesso restrito a um grupo determinado e não podem ser comercializados no mercado.
- São formados por empregados de empresas, entidade ou associações, patrocinadoras desses planos. Os planos fechados são regulados e fiscalizados pela Secretaria da Previdência Social (SPC), vinculada ao Ministério da Assistência e Previdência Social (MPAS), explica Cardoso;
- Já os planos abertos são comercializados no mercado por seguradoras ou entidades abertas de previdência privada e são disponíveis em forma de planos individuais ou coletivos. As entidades abertas são reguladas e fiscalizadas pela Superintendência de Seguros Privados (Susep), vinculada ao Ministério da Fazenda;
- A Portabilidade um direito do cliente. É possível, inclusive, transferir os recursos do plano entre entidades de previdência, sem incidência de tributação.
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